VIVER PARA SEMPRE


VIVER PARA SEMPRE: Porque a complexidade da estética também transcende o homem na finitude da vida.

JOGO DO CIÚME

O jogo do ciúme existe, precisamente, porque há três partes envolvidas: duas, o ciumento e o objecto desse ciúme, têm envolvimento directo, a terceira parte pode ser uma simples ideia, sem existência real. A terceira parte tem apenas manifestação passiva. Tradicionalmente a tónica é colocada na pessoa ciumenta que é descrita como insegura, com baixa auto estima e falta de auto confiança; também em termos do desenvolvimento emocional do ego se tem aceitado que a pessoa ciumenta teve dificuldade em ultrapassar o complexo de Édipo por falta de identificação com o progenitor do mesmo sexo; no entanto o ciúme é um sentimento ou, pelo menos, uma emoção que exige o envolvimento das três partes para se manifestar: o ciumento, o objecto desse ciúme e o terceiro envolvido. Sabe-se que o objecto de ciúme, numa fase inicial, sente-se lisonjeado, sente que é desejado e esse desejo confere-lhe segurança e satisfação mas esconde um sentimento mais profundo, esconde uma incapacidade de gostar de si próprio, de se aceitar como é, por isso aceita as manifestações de ciúme da outra pessoa. A terceira parte envolvida não possui dinamismo próprio mas resulta das características que o sujeito e objecto de ciúme, em negociação mais ou menos inconsciente, lhe decidem atribuir.
Com estas três partes e a triangulação resultante fica tudo preparado para o jogo do ciúme. Cada parte pode, como num drama, assumir o papel de perseguidor, salvador ou vitima; estes papéis poderão, por sua vez, ser redistribuídos e sofrer alterações ao longo do jogo.
Cada uma das pessoas directamente envolvidas no jogo do ciúme, designadamente o sujeito ciumento activo e o objecto passivo desse ciúme, pode adoptar uma das seguintes quatro posições de vida: eu estou bem e tu estás bem; eu estou bem e tu não estás bem; eu não estou bem e tu estás bem; eu não estou bem e tu não estás bem. Frequentemente cada uma das pessoas directamente envolvidas adopta a posição, eu não estou bem e tu não estás bem. Esta é uma posição destrutiva que no extremo do ciúme patológico conduz a comportamentos semelhantes à paranóia com aspectos comportamentais compatíveis com delírio de ciúme e convicção mais ou menos delirante o que se traduz, na prática, por comportamentos bizarros de perseguição e inadaptados à prossecução da relação amorosa por excessivo sofrimento infligido a ambas as partes. O ciumento fantasia outros objectos de amor, desejos de traição da pessoa amada, mas reprime esses desejos como indignos e, por isso, sabendo que ele próprio tem desejos de amor para com outra ou outras pessoas, portanto admite que também a pessoa por si amada os poderá ter; é a repressão desses desejos sentidos como indignos que leva o ciumento a projectar, a colocar na pessoa amada os seus próprios desejos e sentimentos reprimidos. O ciumento acredita que não tem valor, que é uma pessoa indigna e não merece o amor do objecto do seu ciúme e por isso não pode ser por ele amado; o ciumento acredita que não está bem, e não está bem porque o objecto do seu amor, ora ciúme, também não está bem; acredita também que o objecto de seu ciúme não está satisfeito com o seu amor e por isso irá procurar um terceiro elemento. O objecto de ciúme também acredita não estar bem, recebe as manifestações de desejo do ciumento com agrado mas sofre com as insinuações e acusações do ciumento, sofre com a acusação de que está vocacionado para uma terceira parte, sente-se incompreendido, sente-se incompreendido com o objecto do seu amor, sente que ama uma pessoa que não acredita no seu amor e, por isso, sente-se traído por entregar o seu amor a uma pessoa que o não recebe. O ciúme é o lugar do paradoxo, da traição sentimental, é o lugar em que ambas as partes amam sem ter amor, gostam desgostosamente; estão apaixonadas por uma pessoa real mas acreditam num ideal de traição amorosa bilateral; traem o amor que dão e recebem, acreditam que o amor, dado e recebido, não é genuíno, é um amor traído; ora agem com base no amor real sentido, ora agem com base na crença da traição amorosa idealizada.
Jogar o jogo do ciúme, é jogar o jogo de duas pessoas apaixonadas que não se sentem bem consigo próprias e, por isso, também se não sentem bem com os respectivos objectos de amor. Jogar o jogo do ciúme, é jogar o jogo de um ciumento perseguidor, que se sente vítima de uma traição amorosa; é também jogar o jogo de uma vítima de ciúme que persegue o ciumento, que o tenta manter envolvido na relação. O jogo do ciúme constitui um paradoxo confusional entre os papéis de perseguidor e vítima mantido por uma terceira parte idealizada que os salva e estabiliza a relação de sofrimento mútuo numa estruturação previsível do tempo intensamente sentido por um amor, raiva, inveja e ódio, tão grandes quanto a intensidade da relação patológica.
Doutor Patrício Leite, 1 de Novembro de 2017

JOGO DO AMOR

Vivemos uma época histórica cujo império da vontade individual determina e condiciona todo o tipo de interacções entre os seres humanos. O individualismo, enquanto valor fundamental, conduz a um vasto e enorme número de jogos nas interacções sociais; o jogo do amor é apenas um desses jogos. A análise do jogo do amor permite conhecer os jogadores nos aspectos mais profundos, mais recônditos, mais íntimos e escondidos da sua vida pessoal mas, primeiro é preciso compreender, no mínimo, os aspectos básicos dos jogos. Estruturalmente qualquer jogo é constituído por, pelo menos, dois jogadores e uma terceira parte que são as regras (com ou sem equipa de arbitragem, com ou sem espectadores) e um cenário ou teatro de operações consensualmente aceite por ambos. Funcionalmente os resultados do jogo são previsíveis pois, ou empatam ou um ganha e outro perde; no decurso do jogo há sempre lances escondidos e jogadas mais ou menos disfarçadas. Antes do início, cada jogador já tem um conjunto de habilidades, de capacidades adquiridas em treinos, ideias e experiências anteriores assim como tácticas e estratégias definidas mais ou menos inconscientemente.
O jogo do amor é um jogo de carícias, de carinhos trocados entre os jogadores que, aparentemente, procuram conduzir a um aprofundamento da intimidade. Frequentemente inicia quando os futuros amantes se encontram numa troca de olhares mais demorada e mais profunda. Seguidamente podem, ou não, esboçar um sorriso e desviar ou repousar o olhar para de seguida voltar à carga. Há, no entanto, outros modos de iniciar este jogo. Na próxima etapa a mulher, mas também o homem, desenvolvem comportamentos não verbais de cortejo e enamoramento com gestos disfarçados como alisar os cabelos, tocar com as mãos nos lábios, pequenas mordeduras dos lábios, tocar com as mãos ou arranjar as roupas em zonas do corpo com uma chamada de atenção sub-reptícia para os caracteres sexuais secundários distintivos; por vezes estes comportamentos não verbais e inconscientes são mais ousados com gestos muito disfarçados, esporádicos e aparentemente casuais que permitem delinear um trajecto apontado para os órgãos sexuais e zonas erógenas do corpo como, por exemplo, uma pessoa sentada repousando os braços e mãos em cima das pernas mas com os dedos, de certo modo, como que disfarçadamente apontando para os órgãos genitais. Muitos são os aspectos comportamentais, sobejamente descritos e conhecidos, para esta etapa do jogo mas, é a conjugação da postura, olhares, gestos e todos os comportamentos não verbais que, nesta fase, dá a cada um dos futuros amantes a convicção de que a outra parte está disponível para avançar, está disposta a jogar o jogo do amor. Cada um desenvolve uma expectativa crescente sobre o conteúdo e a forma como serão emitidas as primeiras palavras de cortejo; frequentemente surgem como aspectos banais, por vezes visam apenas a identidade social e cível da outra parte; quando já são previamente conhecidos pode algum dos futuros amantes efectuar, como que uma, mais ou menos, disfarçada declaração de sentimentos, de gosto, de desejo ou interesse. Após a troca das primeiras palavras procedem, os futuros amantes, a um aprofundamento da relação, a um aprofundamento da intimidade. É com as primeiras palavras que o jogo do amor inicia uma nova etapa; a partir daí a atenção, dedicada à outra parte, centraliza-se cada vez mais na linguagem verbal, naquilo que cada um diz mas também no modo como o faz, o seu modo de agir. A concentração da atenção dedicada à outra parte é cada vez maior, há também uma estruturação do tempo com crescente exclusão de estímulos e pensamentos que não conduzam directamente a essa relação amorosa nascente. Cada jogador procura, agora, estabelecer um compromisso da outra parte, um sinal claro e evidente, que inserido na cultura dos amantes, garanta a segurança da relação, do seu sentimento de amor e pertença; nesta cultura vigente, o beijo nos lábios, quando entregue por ambas as partes de modo intencional e dedicado, declara habitualmente a abertura oficial do jogo do amor. Progride-se imediatamente para novos beijos, abraços, encostos e palpações do corpo amado. É a corporalização do desejo num estado hipnótico de concentração no objecto amado. Neste jogo, cada parte avança para a relação com a carga do seu passado, leva consigo um guião capaz de estruturar a relação, capaz de estruturar o tempo de jogo. Sendo certo que os resultados do jogo do amor são bastante previsíveis também é evidente que em cada lance ou jogada há sempre uma finta, um segundo sentido escondido, um modo disfarçado que cada jogador adopta para enganar o adversário e, por vezes, a si próprio. É conhecendo a possibilidade do engano que os amantes, ora jogadores, se interrogam sobre a viabilidade e veracidade do amor que a outra parte lhes dedica. Cada amante não ama o outro, ama sim o amor que o outro tem para lhe oferecer, é por isso que, nos momentos de silêncio frequentemente interroga o outro, sobre o conteúdo do seu pensamento, procura saber o que o outro pensa, procura as juras de amor. Nesta fase, uma ambivalência cognitiva e decisional condiciona a relação; ora ama perdidamente ora pensa em largar o objecto da sua paixão, são as dúvidas, dúvidas de amor; é também uma fase de exaltação do ego narcísico com uma valorização hiperbólica da sua pessoa, de si própria; uma hipervalorização das suas capacidades para conseguir novos objectos de amor, é a ambivalência entre a desvalorização e destruição mental internalizada da pessoa amada, ora jogadora, e a sua veneração divinal. É nesta fase de ambivalência afectiva que se começa a delinear uma posição de vida, uma posição de jogo, uma posição estável e duradoura perante a outra pessoa, perante o outro jogador simultaneamente parceiro e adversário no jogo do amor. Assim, nesta etapa do jogo, cada jogador acaba por adoptar uma posição básica segundo a qual acredita e aceita que ambos estão bem, ambos estão mal ou então apenas um está bem e o outro mal. A posição básica de jogo adoptada irá estruturar o tempo e condicionar todo o desenrolar futuro do jogo, da relação amorosa. Se um jogador do amor acredita que está mal e o outro jogador está bem, pois irá adoptar uma posição depressiva que conduzirá a uma progressiva vitimização face ao outro; por outro lado o jogador que acreditar e tomar a posição de que está bem e o outro jogador do amor está mal, pois irá adoptar uma posição paranóica de perseguição ou então dirigir o jogo para ajudar o outro jogador a mudar e, nesta última situação, acredita e faz tudo para que o outro fique com uma melhor posição de vida, nem que para isso tenha de invadir a privacidade, independência e autonomia da vontade expressa pela parte oponente. A adopção desta posição básica face ao outro nem sempre é pacifica e conciliadora já que ambas as partes em jogo, ambos os jogadores do amor podem, em consequência do seu passado, tentar adoptar a mesma posição pela qual terão de concorrer. Por exemplo, se ambas as partes tentarem adoptar a posição de que não estão bem face ao outro, pois ambas terão de concorrer entre si pela vitimização numa tentativa da cada um ser considerado uma maior vitima do que o outro, ou seja, a verdadeira vitima, a única e verdadeira vitima; se não chegarem a um acordo e consenso, em que acreditem, sobre quem desempenha o papel de vitima pois ocorrerá a quebra da relação e ruptura do jogo do amor. Por outro lado, com a progressão natural do jogo, apesar da posição básica de vida adoptada, cada um agudiza o conflito intra-psíquico de entrega versus restrição; surgem os pensamentos de entrega total com perda da própria identidade e despersonalização versus restrição total com exaltação do egoísmo individualista e instrumentalização do outro como mero objecto sexual. Por vezes a ambivalência intra-psíquica crescente e a agudização extrema do conflito interior entre a entrega total e a restrição absoluta causa tanto sofrimento que conduz, nesta etapa, a rupturas que se traduzem na prática pelas histórias pessoais de variados curtos enamoramentos com relações sexuais amorosas esporádicas e experimentais. Estas rupturas no jogo surgem porque pelo menos um dos jogadores do amor abandona o jogo, larga e abandona o outro para não ser por ele abandonado. Apesar do intenso sofrimento de amor que o jogo agora proporciona, as juras de amor eterno são frequentes, por vezes com cenas de ciúmes e um desejo incontornável de manterem o contacto, de aprofundar a intimidade; nos momentos de exaltação do amor a necessidade de fusão corporal e mental é uma constante levada ao êxtase mas o sofrimento persiste. Para ultrapassar esse sofrimento surge a necessidade de encontrar uma terceira parte capaz de estabelecer, como que, um fiel da balança, um ponto de equilíbrio entre duas tendências opostas e conflituais: a tendência á entrega total versus a tendência à restrição total, com instrumentalização do outro jogador como mero objecto de prazer sexual. Essa terceira parte pode ser real ou imaginária, mas tem de existir, tem de se intrometer, tem de se manifestar e ser conversada e discutida entre os jogadores ora apaixonados, ora amantes do amor. Quando a relação é sadia e saudável essa terceira parte é constituída pelo desejo expresso de ter filhos, de os criar e educar, de constituir uma família duradoura e eterna; em situações mais patológicas e doentias essa terceira parte pode ser constituída por várias entidades, entre as quais frequentemente se encontra um ou vários objectos de ciúme capazes de infernizar o jogo, capazes de destruir a felicidade dos amantes jogadores; noutros casos também patológicos surgem situações de bode expiatório em que elementos da família de um, ou ambos os jogadores, não aprovam a relação o que leva os jogadores a se unirem precisamente para combater o ou os elementos da família que não aprovam a relação.
A formação da triangulação não é pacífica já que cada um dos jogadores tenta escolher a terceira parte que lhe permitirá a resolução do seu sofrimento conflitual; por exemplo um poderá ter preferência por escolher os filhos como a terceira parte envolvida enquanto o outro poderá escolher objectos de ciúme mas, uma coisa é certa, se a triangulação agora formada permite ultrapassar o conflito intra-psíquico também vai persistir durante toda a existência da relação, durante todo o jogo do amor. Chegados a esta etapa do jogo, os amantes poderão iniciar uma maior estabilidade relacional fundamentada na posição básica de vida, na triangulação e nas jogadas escondidas ou com segunda intenção; é assim que por exemplo, num casal vocacionado para ter filhos, se a mulher tem uma posição básica de vida segundo a qual acredita não estar bem mas que o outro está, pois pode viver a vida relacional a se vitimizar, a sentir que a fonte dos seus sofrimentos está no companheiro ou então na existência dos filhos; já o companheiro, se sentir que ele está bem e a mulher não está bem pois poderá viver a vida a perseguir a mulher em defesa dos filhos ou então a perseguir os filhos em defesa da mãe.
Com a triangulação e a formação de um triângulo de jogo, um triângulo dramático, um triângulo onde se vai desenrolar um drama, o drama de um família; fica estabilizado o jogo, o jogo do amor. A partir daqui, fica estabelecida a estrutura básica de toda a dinâmica social, de toda a dinâmica de grupos, de toda a dinâmica familiar, com fenómenos de liderança, rivalidades concorrenciais, alianças e comunicações entre os elementos do grupo etc.
Quando, no triângulo dramático, se exclui um terceiro elemento de natureza patológica como o ciúme, bode expiatório, ou outros como são os casos de terceiros elementos conceptuais de alcoolismo, drogas e comportamentos desviantes, pois resulta um triângulo dramático que é constituído por pai, mãe e filhos; este triângulo é mais saudável, já que procura a constituição e manutenção da prole em função da necessidade básica de reprodução e continuidade da espécie mas, ainda assim, podem existir várias formas de sofrimento familiar.
O jogo do amor, como todos os outros, implica transacções de carícias ou carinhos com lances ou jogadas mais ou menos escondidos, mais ou menos disfarçados; também a dinâmica do grupo familiar já estava, ao nível do pai e da mãe, como que escrita num guião, um guião dramático dos respectivos passados vividos, que agora apenas representam, seguem apenas o guião pelo que eliminar o sofrimento familiar consiste em descobrir e dar a conhecer a todos os jogadores envolvidos o modo como o jogo está estruturado no tempo e se desenvolve. Surge assim uma nova terapia, uma psicosocioterapia familiar; não uma terapia familiar com base nas teorias cógnitivo-comportamentais, não uma terapia familiar com base nas teorias psicanalíticas que, entre outros aspectos, defenda um objecto transicional de identificação projectiva a circular entre os vários elementos da família, não uma terapia familiar sistémica focalizada na comunicação e negociação de emoções entre os elementos da família, mas sim uma psicosocioterapia familiar que além de considerar todas as já referidas, contempla também transacções de carícias e carinhos com aspectos escondidos em jogadas assim como um psicodrama triangular num jogo: o jogo do amor.
Doutor Patrício Leite, 24 de Outubro de 2017

Hipnotismo

Desde as primeiras civilizações, pelo menos, que o homem sabe ser capaz de influenciar o seu semelhante, de lhe mudar as crenças, sentimentos, atitudes e comportamentos. As metodologias da influência hipnótica são muitas e variadas porém considera-se que se baseiam sempre na sugestão, a qual pode ser directa ou indirecta. A sugestão é, na sua essência, qualquer afirmação categórica sem a respectiva demonstração. A ausência de demonstração daquilo que se afirma implica imediatamente que a pessoa, objecto dessa afirmação, tem de acreditar no que lhe é afirmado; ainda que por absurdo não acreditasse, sempre se diria que qualquer demonstração, para se concretizar, necessita de premissas, axiomas, dogmas ou quaisquer tipo de afirmações apriorísticas que jamais podem ser demonstradas. Assim, se o fundamento do hipnotismo está na sugestão pois o fundamento da sugestão está na confiança. A vida em sociedade seria impossível sem confiança e todas as pessoas são, mais ou menos, sensíveis às sugestões. A criança ao nascer já vem apetrechada para acreditar, primeiro nos progenitores e depois nas outras pessoas. Se a sugestão permite a influência pessoal pois o hipnotismo vai mais longe, é uma influência pessoal mais profunda, é uma influência pessoal levada aos extremos, é o transe hipnótico. Para induzir o transe são emitidas sugestões hipnóticas indirectas e directas que se confundem com ordens para que o hipnotizado assuma determinado comportamento. Primeiro é necessário um trabalho de preparação em que a pessoa é levada a aceitar obedecer às sugestões que lhe vão ser dirigidas; depois a repetição lenta, monótona e imperativa de ordens ou sugestões, cada vez mais complexas, conduz o hipnotizado a um estado de aceitação passiva daquilo que lhe é ordenado com aparente obediência. A história da influência pessoal começou nos primórdios do instinto gregário, com o desenvolvimento dos primeiros agrupamentos de pessoas, com os primeiros feiticeiros das tribos, capazes de desencadear crenças e mobilizar vontades humanas; progrediu ao longo de muitos séculos até que mais tarde surgiu uma espécie de influência pessoal designada magnetismo animal que por sugestões indirectas induzia o transe hipnótico; esta influência tomou finalmente a designação de hipnotismo. Há comportamentos constantemente presentes em todas as sessões em que são induzidos transes hipnóticos, por exemplo da parte do sujeito hipnotizado verifica-se, entre outros, uma certa perda da real noção do espaço e do tempo durante o qual decorreu a sessão, uma intensa concentração da atenção na figura do hipnotizador com exclusão de todos os estímulos que dele não sejam provenientes assim como uma aparente e pronta obediência às suas ordens, por outro lado, da parte do hipnotizador há também uma concentração muito grande no trabalho a realizar com os sujeitos em transe pelo que essa relação, a relação hipnótica, exige uma sincronia empática muito intensa entre hipnotizado e hipnotizador tornando-se a realização repetitiva de sessões hipnóticas, ao longo do tempo, fastidiosas para o hipnotizador. As modernas teorias do comportamento e das ciências mentais procuram explicar os comportamentos relacionados com o transe hipnótico com base nas suas premissas assim, pela teoria social o papel e estatuto do hipnotizado está bem estabelecido pelo que apenas é preciso encontrar quem o represente, pela teoria psicanalítica refere-se um afrouxamento do ego, pela teoria comportamental apontam-se reflexos condicionados associados aos comportamentos emitidos, pela teoria sistémica aborda-se também a comparticipação dos espectadores no desempenho de todos os papéis e estatutos envolvidos. O desenvolvimento do hipnotismo esteve sempre envolvido em certa controvérsia, ainda hoje se discutem os seus poderes, os poderes da mente; na realidade, por mais espectacular que seja a sessão hipnótica, por mais magnífica que pareça, o certo é que o hipnotismo não permite ultrapassar as condicionantes das leis físicas e químicas, nem sequer atingir todo o potencial da mente humana, porém a sua compreensão é muito útil já que ainda no presente, e apesar do enorme desenvolvimento científico e tecnológico, toda a influência pessoal obedece aos princípios do hipnotismo pelo que conhecer o hipnotismo é conhecer as leis que determinam a influência pessoal.
Doutor Patrício Leite, 9 de Outubro de 2017

Ego

As três instâncias do aparelho psíquico, nos seus aspectos tópico, económico e dinâmico remetem para uma analogia fundamental com a cultura ocidental dominante. Na realidade, foi esta cultura que permitiu a eclosão conceptual de um aparelho mental dinamicamente tripartido em ego, superego e id que mais tarde, foi também designado por outros pensadores com terminologias como ça, moi e surmoi ou também criança, adulto e pai, entre tantas outras denominações; tudo em plena analogia semântica com a referida cultura ocidental.
Desde a sua concepção, a etiologia desenvolvimental do ego sempre delineou um conflito entre a sua aproximação ao id ou, por antagonismo, ao superego. Caracterizar o ego por um agrupamento de mecanismos defensivos, mais ou menos inconscientes, mais ou menos pré-conscientes e, mais tarde assumir a identidade egóica como o mecanismo de defesa fundamental na constituição e análise da personalidade, da persona, da máscara; transporta a análise do aparelho psíquico para uma análise da pessoa instituída; neste sentido, a análise da identidade defensiva pela génese, estrutura e função mais não é do que a análise original da pessoa concreta que se defende. Assim, tornar-se pessoa é tornar-se numa identidade, numa máscara identitária, e destrói-se a pessoa quando apenas e meramente se destrói a sua máscara, a sua identidade. A conceptualidade dualística da identidade comporta sempre a coexistência coincidente entre uma componente interna ou de autoreconhecimento e uma externa ou de heteroreconhecimento; quando ambas, ou qualquer uma destas componentes deixou de ser reconhecida como era, também a identidade pessoal se extraviou, se perdeu, a pessoa deixou de ser quem era ou pelo menos sofreu uma mudança profunda, uma mudança fundamental. Sendo certo que o ego, manifesta e usa uma vasta quantidade de diferentes mecanismos defensivos à sua disposição, é também pertinente a associação entre o mecanismo defensivo identitário a um ego que se torna pessoa. Nesta contextualidade tripartida da cultura ocidental, analisar este mecanismo de defesa, a identidade, é conhecer a sua génese, estrutura e função. Tradicionalmente aceita-se que a génese da identidade está na aproximação, por semelhança, com o agressor, com aquela identidade agressora que causa necessidades, privações e sofrimentos; a função identitária, enquanto semelhança com o agressor, forte e poderoso, é para o ego o mecanismo pelo qual tenta superar a sua frustração, tenta ser tão forte e poderoso quanto o agressor que o frustra e, por isso, com ele se identifica; já no plano da estrutura identitária defensiva, esta funde-se e confunde-se com a pessoa concreta nos aspectos da sua individualidade característica.
O conhecimento intuitivo de um aparelho mental tripartidarista, favorece um ego intermediário que ora se aproxima do id, procurando satisfazer as respectivas pulsões sexuais; ora se aproxima do superego moralista na crítica mordaz a quem apenas satisfaz a sua sexualidade; é na mobilidade deste mecanismo conflitual de atracção – repulsão, em intrínseca relação simbólica com a sexualidade, que a mobilidade do ego faz uso pleno das suas defesas, dos seus mecanismos defensivos porém, a identidade enquanto pessoa, a persona, a máscara identitária procura manter a coerência externa e a coesão interna. Assim a identidade defensiva, ou defesa identitária, manifesta a necessidade da sua manutenção evitando a fragmentação e promovendo a unidade do ego, a unidade de eu, o individuo; portanto, a pessoa individual que se autoreconhece e reconhecida como tal, é apenas uma defesa que se defende.
Um aparelho mental repartido por três instâncias somente exerce a sua funcionalidade quando aplicado a mentes tão patológicas quanto a cultura ocidental que as origina. Por um lado o superego enquanto conjunto de normas morais sexualmente repressivas e internalizadas constitui um obstáculo interno à satisfação das necessidades e pulsões sexuais do id, por contraposição a realidade exterior tanto poderá ser frustrante como facilitadora na satisfação dessas necessidades; por outro lado o ego tem sempre tendência a se aliar, ora ao superego ora ao id, numa constante tentativa simbólica de resolver a conflitualidade patente entre as necessidades do id e os constrangimentos do superego. Nesta realidade cultural doentia a analogia simbólica, ou o simbolismo analógico, é uma ferramenta imprescindível para a compreensão da sexualidade humana. Uma cultura saudável não é aquela que apenas tenta erradicar o superego impondo uma cultura do prazer, impondo uma moral radical; uma cultura saudável não nega, não reprime nem combate o prazer mas tenta também uma aproximação do ego ao id, não um id exclusivamente de prazer mas um id de reprodução, pois essa é a sua função vital. Numa cultura saudável o tripartidarismo do aparelho mental será substituído por um dualismo irreconciliável entre a constância do meio interno e os constrangimentos do meio externo na manutenção da função reprodutora enquanto precursora da continuidade da vida.
Doutor Patrício Leite, 7 de Outubro de 2017

Invasão mental e manipulação humana

A mente humana compreende um grupo de diferentes propriedades do organismo, até agora consideradas imateriais, que medeiam respostas a solicitações ou provocações dos meios interno e externo. Invadir a mente é apropriar-se dessas propriedades com a possibilidade de as manipular e dirigir. A invasão mental, como todas as outras, necessita sempre de um plano combativo num cenário de adversidade. Primeiro inicia-se com a espionagem mais ou menos consentida e só posteriormente se desencadeiam as acções conducentes à manipulação e controlo da mente alheia.
Se abandonarmos os mecanismos biológicos, químicos e físicos, resta a comunicação, com os seus elementos: emissor, receptor, mensagem, código, contexto e contacto; como mecanismo de invasão mental por excelência. Assume-se que, numa interacção entre pessoas, a ausência de comunicação não existe e de um modo geral, a comunicação verbal tem os seus elementos bem estruturados e definidos; por outro lado, na comunicação não verbal, também designada por linguagem corporal, os elementos da comunicação podem diferir não só entre culturas e grupos humanos mas também de uma pessoa para outra. Na primeira fase da invasão mental, com a espionagem, procura-se conhecer as propriedades mentais através da linguagem verbal e não verbal; a abordagem pode ser directa ou mediada por instrumentos como câmaras de filmar, fotografias, textos escritos, etc.
Em linguagem corporal observam-se os gestos, posturas, distância entre as pessoas interlocutoras, olhares, entoações da voz, etc. A linguagem corporal é muito útil para avaliar as atitudes e crenças de uma pessoa assim como as suas emoções pelo que o simbolismo adquire grande interesse na compreensão do significado desta forma de comunicação. Por exemplo, se uma pessoa que caminha na rua com uma mala de mão encontra outra sua conhecida, iniciam conversa e a pessoa agarra a mala com ambas as mãos e a coloca em frente ao corpo, aceita-se que está a formar uma barreira e esta barreira simbólica significa que a pessoa se defende mentalmente da outra, há como que uma desconfiança mental que a leva a defender-se; essa barreira poderia ser feita com os braços ou qualquer outro objecto mas, muito importante, em linguagem corporal o contexto da situação comunicacional é determinante para encontrar o significado. A exploração das emoções, sentimentos e afectos, assim como de atitudes e pensamentos ambivalentes em conflito intra-psíquico, também pode ser realizada com base numa abordagem mais belicista da mente humana, nesta abordagem, assume-se que o ser humano nasce com necessidades de sobreviver e de se reproduzir; essas necessidades geram pulsões que conduzem o comportamento com vista a sua satisfação, por outro lado a cultura social e o meio ambiente externo nem sempre satisfazem as necessidades para reduzir as pulsões então, quando as necessidades são vitais pois se não forem satisfeitas a pessoa simplesmente morre, no entanto, no caso das necessidades de reprodução a pessoa não morre mas fica cronicamente frustrada. Com o desenvolvimento a criança, mais tarde adulto, internaliza e assume as normas culturais que lhe restringem a satisfação das pulsões de reprodução como pertencendo a si própria; gera-se então uma instância mental, designada Ego ou consciência decisional, cuja função é mediar os conflitos intra-psíquicos entre as pulsões originárias e as barreiras internalizadas que se opõem à sua satisfação. O conflito entre as pulsões e as repressões surge ao Ego decisional como uma tensão ou sofrimento pelo que esse Ego se defende, no entanto durante o sonho nocturno, assim como em situações de actos involuntários e aparentemente sem propósito, designados actos falhados, as defesas tornam-se frágeis e os pensamentos e afectos associados aos conflitos entre as pulsões e as restrições, surgem ao Ego decisional de uma forma simbólica. O simbolismo baseia-se na analogia e a análise simbólica é muito importante para sondar e compreender a mente humana. Em contexto de comunicação verbal a espionagem discreta da mente compreende, entre outros, gestos, posturas e entoações de voz mas as análises de sonhos e associações de ideias em devaneios e outros contextos, de actos falhados e o modo como as defesas do Ego se vão manifestando ao longo da interacção humana permite entender a mente nos seus aspectos mais recônditos. As bases da invasão mental são muito simples: ou o Ego consciente e volitivo está forte e se defende tornando-se a espionagem num acto de compreender como se defende, de que se defende e quando começou a se defender desse modo ou então o Ego volitivo e consciente está fraco e deixa transparecer todo o conteúdo, ainda que simbólico, da sua mente. As pessoas admitem que não querem ter a sua intimidade invadida; a intimidade pressupõe a ausência de partilha com o exterior mas associa-se, embora frequentemente de forma simbólica, com a satisfação das pulsões de reprodução, com a sexualidade, no entanto numa segunda etapa da invasão mental são desencadeadas as acções conducentes à manipulação e controlo da mente alheia que visam não só a intimidade como todas as outras propriedades mentais.                           
Para efeitos da manipulação é importante compreender que os comportamentos humanos, animais, ou até eventualmente vegetais, bacterianos, virais e de todos os outros seres vivos, podem ser inatos ou instituais mas também adquiridos por acções condicionantes do meio externo, que pressiona e obriga a uma mudança do meio interno.
Apesar das condicionantes externas e instituais há, em qualquer ser vivo taxonómico, duas acções que não são inatas nem adquiridas; são singularidades únicas que jamais se repetirão: apenas se nasce e morre uma vez, não se aprende a nascer nem a morrer. Com excepção destes dois comportamentos, destas duas singularidades únicas, todos os restantes comportamentos podem ser repetidos e desenvolvidos.
Ao nível humano é importante compreender as várias propriedades como pensamentos e ideias, afectos, emoções e sentimentos, acções e comportamentos, vontade, interesses e necessidades a satisfazer, memória a curto e longo prazo das suas ideias e comportamentos; enfim uma enorme e exaustiva lista de propriedades mentais.
Apesar da dinâmica exploratória inicial da psicanálise valorizar a intimidade como aspecto mais ou menos simbólico de uma sexualidade reprimida, ou exercitada, também se torna importante compreender os estados de carência sentidos pelo meio interno que podem ser satisfeitos através do meio externo. As pessoas capazes de manipular e influenciar são aquelas que têm punições ou recompensas, ainda que simbólicas, para distribuir pelos seus semelhantes. Sendo o poder a capacidade de criar ou estabelecer estados de carência ou insuficiência, então o poder é também uma forma de punir, de castigar, de criar insatisfação ou sofrimento; por outro lado sendo a influência a capacidade de satisfazer necessidades, de recompensar e satisfazer pessoas, então a influência pessoal, quando bem utilizada, poderá ser uma forma de conduzir à felicidade.
A tentativa de manipular pelo castigo pode começar com uma simples manifestação de desilusão, com uma simples e pequena censura moral mas sempre que o comportamento de alguém se realiza de modo a causar sofrimento ou constrangimento numa outra pessoa, pois está-se em frente de uma pessoa que tenta usar poder para alterar o comportamento de outrem; por outro lado se alguém elogia, ainda que de forma simples e disfarçada, ou manifesta aceitação por um comportamento alheio, pois essa pessoa está dessa forma a apelar para a insegurança, para a falta de valor ou auto estima, para a necessidade de amor e pertença e aceitação pessoal e social e assim conduzir ou manipular o comportamento da outra pessoa.
Aceitar a interpretação analítica, feita por outra pessoa, de algum aspecto do comportamento pessoal, implica necessariamente na atribuição de maior credibilidade ao outro, o interpretante, do que ao próprio ou interpretado; por outro lado a pessoa que vê algum aspecto do seu comportamento interpretado tem imediatamente uma primeira tendência para negar essa interpretação e quanto mais acertada for a interpretação mais veementemente ela será negada, porém quando as defesas e resistências forem trabalhadas e expostas a pessoa acabará por aceitar a interpretação: A interpretação do comportamento alheio funciona como uma técnica de manipulação, a análise das resistências que se opõem a essa interpretação é também manipuladora mas a simples associação verbal e repetida de um adjectivo qualificativo, positivo ou negativo, com um substantivo, já manipula a atitude face ao referido substantivo. Se virtualmente todas as técnicas psicoterapêuticas são manipuladoras também é certo que aspectos como os raciocínios silogísticos ou outros mecanismos da retórica perseguem o mesmo fim manipulatório, é importante saber que a agilidade humana é enorme pelo que frequentemente se usa o peso e a força da opinião social para impor comportamentos normativos a toda uma comunidade ou, pelo menos, às pessoas mais susceptíveis. Se é certo que a comunicação e os seus elementos constituem o mecanismo de invasão mental por excelência, é também certo que a repetição monótona e imperativa de uma ideia simples e pictórica acaba por se inculcar no inconsciente de uma pessoa isolada mas também de toda uma comunidade. Os rituais da manipulação comunicacional, tanto individual como colectiva, conduzem ao transe de aceitação sem nada questionar; frequentemente, nas situações colectivas, o próprio transe ritualesco já incorpora as questões e interrogações a colocar para assim obstruir o raciocínio e curiosidade humana facilitando um estado permanente de aceitação.
Explicar ou expor algumas das técnicas básicas de manipulação não garante segurança absoluta, na realidade, nem sequer o conhecimento das técnicas avançadas oferece qualquer garantia de fuga à manipulação alheia. Todos os seres humanos são manipuláveis; é mais fácil manipular do que fugir da manipulação.
Quando duas pessoas manipuladoras se encontram a sua relação acaba por tornar-se num jogo competitivo pelo poder, pelo domínio; nesse jogo, ganha vantagem quem, de algum modo, ainda que sub-repticiamente, conseguir uma ascendência, ainda que uma ténue e ligeira ascendência, sobre o outro; essa ascendência é fundamentada num sentimento de fé, de credibilidade, de confiança ou segurança. A confiança, fé ou credibilidade é uma atitude sentimental vocacionada para o futuro. Assim, se numa primeira fase se procede à análise exploratória, a confirmação e concretização da manipulação surge como um jogo de credibilidade; esse é o jogo do poder manipulador.               
Doutor Patrício Leite, 3 de Outubro de 2017

Hacking e cibersegurança

Alguns meses atrás os meios de comunicação social deram o alerta para um vírus informático, WannaCry, que poderia causar danos em muitos computadores com sistema operativo Windows; actualmente sabe-se que este tipo de ransomware está a ser preparado para os telemóveis ou smartphones com sistema operativo Android; há até um software de programação chinês que permite, como que em programação orientada por objectos, criar destes vírus informáticos com poucas linhas de código; quando o programa for traduzido do chinês para o inglês, a proliferação de ransomware para smartphones será imensa pelo que qualquer pessoa poderá, a qualquer momento, ver os seus dados do telemóvel encriptados e sem possibilidade de acesso; as operadoras devem incorporar, desde já, antivírus de raiz nos sistemas operativos android dos respectivos smatphones.
A intrusão, não autorizada, em sistemas informáticos alheios, constitui uma ilegalidade que pode ser punida pelas leis do cibercrime. São muitas as ferramentas de intrusão porém o ideal será que quem desejar tornar-se especialista nesta área, desenvolva as suas próprias ferramentas. A programação informática tem aqui a sua utilidade plena e as designadas linguagens de baixo nível, como assembley mas também a linguagem C, são excelentes pois permitem o acesso aos registos da unidade central de processamento ou a criação de sistemas operativos que vão gerir completamente a máquina. Alguns paradigmas de programação, como a orientação a objectos, facilitam a produção de softwares mas as propriedades, eventos e métodos associados a um objecto, limitam as possibilidades de criação na área da intrusão informática. As linguagens de programação são imensas e quem quiser desenvolver de modo eficaz terá de realizar especialização em alguma dessas linguagens. Muitos hackers, embora compreendendo as linguagens de programação, preferem utilizar ferramentas desenvolvidas por outros. Para iniciar convém compreender, um pouco, o sistema operativo Windows, depois poderá passar para o Linux. Actualmente as interfaces gráficas do Linux tornam a sua utilização facilitada pelo que os utilizadores, ainda sem compreender verdadeiramente o sistema de ficheiros, já podem experimentar várias versões e distribuições como o Ubuntu, Mint, Suse, Gentoo e muitas outras que até podem rodar directamente de CD, DVD ou de uma Pendrive, portanto ganham experiência e conhecimento em Linux sem necessitar de qualquer instalação. Para efeitos de invasão informática uma das melhores distribuições, se não a melhor, é o Kali Linux que foi desenvolvido a partir do Debian. O propósito é fornecer serviços de invasão a sistemas informáticos para, hacking ético, demonstrar as vulnerabilidades que poderão ser corrigidas posteriormente. O Kali Linux tem cerca de 300 ferramentas de invasão que permitem planear e atacar os sistemas desde a fase de exploração das vulnerabilidades até a concretização da intrusão por rede fixa, wireless, telemóvel, etc. Quem quiser aprender Kali Linux deve primeiro conhecer alguns comandos do terminal Linux e depois treinar intensamente numa ferramenta ou grupo de ferramentas disponibilizadas pelo Kali. Como a intrusão em sistemas informáticos pode deixar rasto, muitos hackers usam redes VPN (virtual private network) ou a rede Tor para se tornarem anónimos na internet. Quem pesquisar por digi77 vai, nesse site, encontrar a distribuição de um sistema operativo Linux baseada em Debian, designada Linux-Kodachi que corre, sem instalação, directamente de um DVD ou uma Pendrive e vem com acesso a rede Tor para garantir mais eficazmente o anonimato. Nem todas as ferramentas de invasão correm sobre Linux; a NirSoft disponibiliza vários freewares de hacking muito úteis para Windows, no entanto, os conhecimentos Linux são fundamentais, de tal modo que alguns sistemas operativos open source, como o Dracos-Linux, baseado no Kali mas destinado a especialistas mais avançados, é distribuído com ferramentas de intrusão e de engenharia reversa.
Algumas ferramentas do Kali como Burp Suit, encontrado em portswigger, permite avaliar a segurança das portas; outras como exploit-db permitem explorar arquivos de bases de dados; aircrack-ng é usado para a segurança em redes Wifi e o download do programa, no respectivo site, pode ser realizado para Linux ou Windows; com o metasploit pode ser continuada a pesquisa de vulnerabilidades e com sqlmap a injecção de código SQL (Structured Query Language) torna-se automática. Aqui, apenas foram divulgadas algumas das actuais ferramentas da cibersegurança mas o mundo do hacking continua em plena evolução pelo que quem desejar adquirir conhecimentos técnicos amplos e consolidados terá de treinar até à perfeição. A dificuldade do treino, oferece o doce sabor da vitória!
Doutor Patrício Leite, 24 de Setembro de 2017

Poder no Mundo

Pensar a base do poder político é pensar os conceitos que lhe dão origem; a base conceptual é o fundamento, é o alicerce ou estrutura onde assentam os outros conceitos. Poder é, na sua essência, a capacidade de causar constrangimentos, necessidades ou sofrimentos, a pessoas que não se submetam à vontade poderosa. A política diz respeito às regras, leis e imposições que obrigam coercivamente toda uma comunidade. Um estado é uma comunidade politicamente organizada, isto é, organizada pelo poder e em função desse mesmo poder. A comunidade mundial também está politicamente organizada. A expansão das correntes migratórias, das viagens e comércio internacionais e do capitalismo mundial dominante, com as poderosas empresas multinacionais em concorrência comercial, fez crescer uma ordem jurídica mundial que, no âmbito do direito internacional privado, regula e disciplina os interesses particulares dos indivíduos. Se no plano do direito objectivo as regras jurídicas e as fontes do direito internacional privado assumem uma legitimidade baseada num certo consenso internacional sobre a sua necessidade; o problema surge sobretudo quando há conflitos de leis entre estados diferentes que desafiam essa ordem jurídica internacional. As relações entre estados e os respectivos interesses colectivos também são disciplinados por regras do direito internacional público legitimadas por organizações supranacionais mas a arena política internacional baseia-se fortemente em relações de poder conflitual entre estados-nação politicamente organizados e com maior ou menor soberania. Um estado diz-se soberano e independente quando o seu poder interno não é influenciado pelo poder externo mas os cientistas políticos debatem o direito de ingerência, ainda que por razões meramente humanitárias. Quando um estado invade ofensivamente outro estado-nação soberano, gera-se uma crise na ordem jurídica internacional; com o desenvolvimento da crise e agudização do conflito, a luta pelo poder, pode culminar numa guerra. Numa ordem jurídica estável, tanto no plano internacional como no interior de um estado, o poder total pode ser comparado a um bolo. O poder do mundo, o bolo do poder mundial, está repartido em fatias desiguais que correspondem ao poder total de cada estado-nação; a partir daqui, a fatia correspondente ao poder total de um estado soberano vai ser internamente repartida por grupos de pessoas e finalmente por cada cidadão desse estado; uns ficarão com uma fatia maior e outros terão de se contentar com uma menor. A ordem e o ordenamento jurídico estabelecem as regras de partilha desse bolo, desse poder. Assim, cada pessoa, cada cidadão, tem uma pequena fracção do poder do seu estado. O estatuto social e o papel político de cada pessoa diz apenas respeito à quantidade do seu poder no seio da respectiva comunidade. No plano pessoal, a política é a luta pelo poder e tem poder quem, num conflito entre vontades individuais, tiver maior capacidade para causar sofrimento aos seus adversários.
Doutor Patrício Leite, 19 de Setembro de 2017