Fenomenologia dualista

A fenomenologia tradicional, enquanto estudo ou explicação dos fenómenos, fundamentada na pressuposição de uma realidade positiva e estática, tem utilizado uma metodologia reducionista na compreensão dos objectos apreendidos pela consciência. Entender aquilo que aparece, como um fenómeno estático estudado pela fenomenologia é reduzir essa entidade ao mero positivismo existencial, mas também, excluir o negativo ou a negação, do seu campo de actuação e estudo. O desenvolvimento das ciências e do conhecimento científico é, actualmente, cada vez mais construtivista e criacionista; é construtivista no sentido em que a realidade humana actual é fortemente influenciada e construída a partir do que existe, é criacionista porque até nas ciências naturais, ou exactas, se admite a criatividade como produtora de conceitos, ou ideias, que posteriormente se tornam realidades existenciais. A fenomenologia tradicional nega a participação do observador na criação do fenómeno, na criação do objecto observado; a fenomenologia dualista propõe uma abordagem segundo a qual qualquer fenómeno tem duas componentes próprias, indissociáveis mas mutáveis, ou seja, aquela componente que diz respeito ao que está a ser observado e a outra que diz respeito ao observador. A fenomenologia dualista aceita a mudança, aceita portanto a mutabilidade dos fenómenos observados; o aparecido que aparece não tem realidade existencial estática, própria e independente de um ser captante ou observador; o aparecido que aparece depende do observador que o observa; o fenómeno aparecido, que aparece, é o resultado existencial de uma interacção recíproca entre o observador e o observado. Para a fenomenologia dualista o fenómeno não é meramente o que aparece, o fenómeno é algo mais, o fenómeno é o aparecido.
O método fenomenológico tradicional promove a redução eidética como modo de alcançar a essência; enquanto retira atributos ao que aparece até lhe alcançar a essência está a estabelecer e delimitar o campo ou território do fenómeno; ao considerar a essência como conditio sine qua non para a realidade existencial do fenómeno, está apenas a considerar uma realidade estática, unidimensional e externa ao ser que a observa. A nova fenomenologia dualista não nega a tradicional mas complementa-a, aceita a metodologia da redução eidética mas impõe a sua aplicabilidade simultânea ao observador e observado, aceita pois, a dualidade da essência como condição de paridade dual e indissociável na construção dinâmica do fenómeno; assim o eidos, essência ou ideia, só faz sentido enquanto coexiste em dualidade simultânea e dinâmica com o ser ou ente que o acompanha. O fenómeno que aparece e a essência do aparecido, funcionam estruturalmente como as duas faces de uma moeda, separados não existem, já que a sua realidade existencial é dualista.
Doutor Patrício Leite, 18 de Janeiro de 2018

Neuroelectroquímica Cognitiva

A emergência da reflexão filosófica aprofundada conduziu, desde há centenas de anos, o ser humano a um problema sobre os mecanismos do pensamento. A dúvida metódica do racionalismo cartesiano colocou o acto de pensar como pré-requisito da existência, mais tarde, a reflexão fenomenológica definiu a essência do pensamento como uma relação entre um sujeito pensante e um objecto pensado; em termos mentais o pensamento é entendido como o fluxo das ideias. Na realidade, muito se tem procurado sobre os mecanismos dessa actividade tão quotidiana que é o pensamento, as respostas são poucas e escassas. Em termos das ciências físico-químicas, ainda não se conseguiram desenvolver experiências capazes de comprovar as várias hipóteses explicativas mas, por analogia e integração de conhecimentos na área da neuroquímica, é possível desenvolver ideias e sabedoria em coerência completa com os conhecimentos científicos actuais.        
Compreender os fundamentos físico-químicos do pensamento obriga a um prévio conhecimento destas ciências aplicadas ao organismo humano; na realidade, este é constituído por diferentes substâncias químicas que interagem entre si e se podem classificar de acordo com a respectiva presença de grupos funcionais. Os aminoácidos são compostos da química orgânica que contêm, pelo menos, um grupo funcional amina de carácter alcalino e um grupo funcional ácido carboxílico.
As catecolaminas são monoaminas derivas do aminoácido tirosina que têm em comum o grupo catecol também chamado 2-hidroxifenol. A dopamina é uma das principais catecolaminas neurotransmissoras cujas funções variam em conformidade com a sua localização no sistema nervoso central, com a sua escassa ou excessiva actividade e com os respectivos receptores envolvidos. Alterações nas vias dopaminérgicas podem causar sintomas e doenças muito variadas, entre outras: perturbações psicóticas, doença de Parkinson, comportamentos adictivos e toxicodependências. Com apenas um composto químico, a dopamina, surgem patologias que podem envolver o movimento, o desejo ou vontade mas também o pensamento. Para explicar a grande variabilidade de alterações causada por apenas um composto orgânico, a dopamina, é necessário compreender a noção de estereoisomerismo ou isomerismo espacial que se aplica a compostos químicos com a mesma fórmula estrutural e diferente capacidade de desviar a luz polarizada mas também aqueles com diferente distribuição ou conformação espacial. Existem cinco receptores de dopamina (D1, D2, D3, D4 e D5) desigualmente distribuídos pelo sistema nervoso e sabe-se que a estereoisomeria da dopamina apresenta várias conformações espaciais pelo que algumas, mas não todas, conformações dopaminérgicas específicas actuam em determinados receptores.
A composição química dos receptores da dopamina faz-se à custa de várias centenas de aminoácidos que por ligações peptídicas vão constituir proteínas ou polipeptídeos cuja estrutura tem sete domínios hidrofóbicos transmembranares, um extremo terminal amina no meio extracelular e um grupo terminal carboxílico no meio intracelular. Os receptores dopaminérgicos estão acoplados à proteína G constituída por três subunidades, alfa, beta e gama. Alterações na isomeria conformacional da dopamina causam alterações nos respectivos receptores que, por sua vez, modificam a conformação da proteína G a qual através de uma das suas subunidades ligada à guanosina trifosfato permite nesta, alternância com guanosina difosfato, acabando por envolver o monofosfato cíclico de adenosina como segundo mensageiro até a concretização de efeitos fisiológicos sobre o metabolismo.
O excesso de dopamina nos receptores dopaminérgicos D2 em certas zonas do sistema nervoso está implicado em perturbações psicóticas que envolvem alterações do pensamento com delírios ou erros do juízo.
A interacção provável entre a molécula de dopamina e a cadeia polipeptídica constituinte dos seus receptores D2 faz-se através dos aminoácidos serina, triptofano e ácido aspártico; trata-se de uma interacção molecular feita por pontes de hidrogénio mas também por outras forças intermoleculares como as resultantes da interacção entre dipolos presentes em compostos polares ou então dipolos induzidos, nas moléculas apolares; a conformação estereoisomérica espacial da dopamina varia com a interacção destas forças intermoleculares e, dependendo da sua conformação espacial assim ela interfere com determinados e específicos receptores dopaminérgicos.
Algumas forças intermoleculares, como as que ocorrem entre dipolos induzidos, também chamadas forças de dispersão, dependem da massa molecular pelo que o número de isótopos dos elementos constituintes da molécula orgânica vai interferir nesta força e, por conseguinte, na conformação espacial da respectiva molécula.
Ainda não se conhece o papel e a função dos isótopos nos mecanismos do pensamento, das ideias e da memória; na realidade não se conhece o contributo dos isótopos para as alterações ou patologias dos organismos vivos em geral e do ser humano em particular.
A compreensão da electroquímica fisiológica dopaminérgica permite agora fazer a transposição analógica para os mecanismos neuroelectroquímicos do pensamento, assim, quimicamente e em termos de estereoisomerismo o pensamento é uma sucessão de mudanças da geometria conformacional de moléculas que ocupam um determinado espaço no organismo humano. As moléculas orgânicas estáveis, que após sofrerem mudanças na geometria conformacional voltam sempre à mesma conformação espacial, funcionam como unidade básica ou bit de informação na constituição das ideias e armazenamento da memória.
Mudanças ocorridas na geometria espacial de uma molécula vão, por intermédio das forças intermoleculares, interagir com as moléculas vizinhas causando-lhes alterações, surge assim o pensamento por associação de ideias.
O pensamento como resposta a estímulos externos sobre receptores sensoriais surge após um fluxo iónico com despolarização neuronal que se transmite por impulso nervoso numa corrente saltatória entre os nódulos de Ranvier, dos axónios, até atingir as telodendrites e libertar para a fenda sináptica neurotransmissores como a dopamina. Também, ao nível de alguns receptores sensoriais, ocorrem fenómenos de estéreoisomerismo conformacional como no caso do 11-cis-retinal (vitamina A) versus 11-trans-retinal, componente da rodopsina presente nos bastonetes que promove a transdução de sinal luminoso em corrente eléctrica permitindo que as células da retina se tornem responsáveis pela visão no escuro. Salienta-se que fenómenos associados a receptores acoplados à proteína G ocorrem também em outros receptores sensoriais como o olfacto e o gosto ou paladar.
Por analogia e perante os conhecimentos científicos descritos, o estéreoisomerismo conformacional revela-se responsável pela neuroelectroquímica cognitiva desde os estímulos externos produtores de sensações, passando pela percepção, até atingir as estruturas cognitivas do pensamento interpretativo e da memória como resultado de alterações nas conformações estereoisoméricas moleculares.
Doutor Patrício Leite, 10 de Janeiro de 2018

Elementos de anatomofisiologia mental

Há um interesse crescente em conhecer as estruturas volitivas decisionais do ser humano, as pessoas querem saber e conhecer os mecanismos e condições que determinam os actos voluntários, conhecer a vontade e aquilo que a condiciona; na realidade, a vontade consciente é o grande determinante da conduta humana mas o seu conhecimento implica as estruturas mentais subjacentes capazes de influenciar a sua funcionalidade.
A primeira etapa é nitidamente orgânica; o ser humano recebe estímulos externos pelos órgãos dos sentidos e reage, com comportamentos voluntários, através da musculatura estriada. Todo o input de estímulos é, nos órgãos dos sentidos, transformado em sensações. Todo o output de influxo nervoso é, na musculatura estriada, transformado em contracções e relaxamentos de músculos responsáveis pelos comportamentos voluntários observados. A teoria psicanalítica descreve também alguns comportamentos motores, designados actos falhados, que apesar de serem realizados por músculos estriados, não correspondem a actos voluntários; a psicofisiologia dos actos falhados seria um campo interessante de investigação dos mecanismos mentais.
A percepção implica numa certa organização mnemónica dos estímulos sensoriais e das sensações; a percepção faz a transição entre as estruturas orgânicas sensoriais e as cognitivas, porém o mecanismo organizacional dos estímulos sensoriais externos poderá estar localizado nos órgãos dos sentidos mas também no córtex cerebral. Há respostas musculares automáticas, a estímulos sensoriais, que não chegam a ser conscientemente analisadas pelas estruturas superiores do cérebro. A cognição compreende vários dispositivos mentais capazes de processar informação. A memória com a sua retenção imediata ou icónica, mas também a curto, médio e longo prazo, de conceitos mais ou menos abstractos, desde que evocada, permite interpretar os estímulos externos assim como prever acontecimentos encadeados por mecanismos associativos ou de causa a efeito. A base psicofisiológica dos lapsos de memória assim como das imagens mentais vivenciadas simbolicamente no decurso do sono, enquanto as pessoas estão a sonhar, seria um campo interessante de investigação dos mecanismos responsáveis pelos processos cognitivos.
Pelas necessidades, enquanto estados de carência do meio interno, surgem pulsões geradoras de comportamentos impostos à vontade consciente; nestas situações, de energética motivacional, a concentração da atenção desloca-se para os estímulos capazes de satisfazer essas carências; a memória é aqui muito importante para ajudar a focalizar e manter a atenção. O ser humano vive e convive em organizações humanas de base social que emitem frequentemente os mesmos estímulos de forma repetida; as atitudes têm sempre uma componente volitiva, afectiva e racional e, enquanto tendência para a acção, são fortemente influenciadas pelas crenças que, pela sua estabilidade, permitem seleccionar os estímulos e manter a atenção considerada relevante para a satisfação de necessidades.
Considera-se o afecto como uma ideia ou conjunto de ideias associado a uma emoção; de acordo com os conhecimentos científicos actuais, as emoções são centralmente controladas pelo sistema límbico e fazem a ligação entre a componente somática e mental do organismo; as emoções apresentam polaridade positiva (agradáveis) ou negativa (desagradáveis) e têm carácter volátil; já os sentimentos são constituídos por ideias e emoções conjuntas e têm uma maior estabilidade no tempo. Os afectos em conjunto com a respectiva emoção, constituem os sentimentos que são basicamente três e apresentam polaridade e simetria: amor – ódio, esperança – angustia, alegria – tristeza.
Os conceitos de sentimento, emoção e afecto são muitas vezes misturados e confundidos. A composição de emoções com sentimentos básicos, ou elementares, gera um vasto conjunto de conceitos com os quais as pessoas se exprimem e comunicam. A comunicação humana é feita através de linguagem verbal centralizada na transmissão de conceitos e ideias abstractas; já a linguagem corporal, ou não verbal, centraliza-se na interacção entre as pessoas comunicantes. A análise da linguagem corporal permite conhecer as atitudes que as pessoas mantêm entre si, mas também em relação a outras entidades, assim como as respectivas crenças. O sentimento básico, ou elementar, que serve de fundamento emocional para a crença é a esperança, também designado por confiança ou segurança; já a ideia afectiva que acompanha essa emoção pode ser muito variada mas é a sua constância no tempo que lhe permite o estatuto conceptual de crença. Viver numa comunidade social organizada torna o ser humano muito especial, capaz de emitir e responder a estímulos significativos; a estabilidade e previsibilidade organizacional das comunidades humanas faz-se à custa das noções de papel social, portanto o desempenho de comportamento significativo que a pessoa é capaz de emitir para os outros elementos da comunidade, e estatuto social, portanto a esperança e previsibilidade do desempenho de comportamento significativo que é atribuída a cada pessoa da comunidade.
Algumas teorias comportamentais da aprendizagem fundamentam o conhecimento sobre a conduta humana, no binómio estímulo – resposta; o conjunto formado pelo organismo humano e respectiva personalidade seria um mediador capaz de receber estímulos, processar a informação recebida e emitir respostas comportamentais; o meio ambiente ao recompensar ou punir comportamentos estaria a seleccionar a conduta mais adequada em face de determinados estímulos. Socialmente, o elogio funciona como uma forte recompensa da conduta social, a censura constitui uma punição capaz de inibir certos comportamentos considerados inadequados pelo ambiente social envolvente. Nem todo o comportamento é aprendido; através de actos motores, simples e inatos, que surgem como respostas a estímulos, as crianças ao nascer já vêm apetrechadas com instintos capazes de lhes proporcionar os primeiros momentos de sobrevivência.
As pessoas têm certos atributos e capacidades inatas mas a aprendizagem favorece o desenvolvimento da inteligência como desempenho intelectual na resolução de problemas; a mente, enquanto estrutura das funções superiores do ser humano pode, por analogia com a anatomia e fisiologia do corpo humano, ser descrita em termos de anatomofisiologia mental.
Doutor Patrício Leite, 4 de Janeiro de 2018

Obsessão ou delírio

A loucura, a insanidade mental, por vezes temida por vezes louvada tem, ao longo dos tempos, acompanhado o homem e a história da humanidade. Os pensamentos e as ideias loucas estão presentes, sem excepção, em todas as pessoas; há contudo uma distinção entre os pensamentos loucos que surgem esporadicamente, os que persistindo ainda permitem uma vida mais ou menos adaptada, e finalmente aqueles que desregulam completamente a vivência social da pessoa afectada. Tradicionalmente a distinção entre obsessão e delírio tem sido fundamental para catalogar a pessoa entre aquelas que sofrendo ainda se podem adaptar, ou não, a uma vida social produtiva; na realidade o fenómeno é um só, obsessão e delírio são a continuidade da mesma perturbação mas com manifestações diferentes.
Obsessão é entendida como a irrupção na superfície da consciência de uma ideia egodistónica, portanto uma ideia que a pessoa não quer pensar, que tenta afastar do pensamento mas não consegue, é uma ideia persistente.
Delírio é entendido como um erro do juízo, um erro ou engano na captação da realidade; mas não é um erro qualquer, é um erro com convicção inabalável, uma convicção errónea que persiste e resiste perante a contradição insistente da melhor argumentação lógica que lhe possa ser oposta.
Obsessão e delírio são manifestações do mesmo fenómeno mental e, por isso, têm aspectos comuns; na realidade e para enunciar apenas alguns dos seus aspectos comuns salienta-se que apesar de as ideias obsessivas e as delirantes se associarem com emoções de medo e ansiedade, ambos se encontram no domínio cognitivo, das ideias ou do pensamento; tanto na situação obsessiva como na delirante há uma hipervalorização do conteúdo das ideias; ambos consistem em ideias persistentes e incapazes de erradicar da consciência; em ambos os casos a persistência das ideias resiste à argumentação lógica, simplesmente no caso da obsessão com insight a pessoa reconhece, no fundo da consciência, a irracionalidade dessas ideias e no caso do delírio mantém a convicção delirante mais ou menos inabalável; uma obsessão com pouco ou nenhum insight é difícil ou impossível de distinguir do delírio já que o delírio é apenas uma obsessão sem qualquer insight; o delírio e a obsessão sem insight são uma, e uma só, manifestação do mesmo fenómeno mental; o delírio é, na sua essência, uma obsessão sem insigfht.
A história do delírio e pensamento delirante, com ou sem ideias de autoreferência, acompanha a história da medicina, e da psiquiatria desde o seu início, no entanto a perturbação obsessivo-compulsiva, enquanto agrupamento sindromático e nosológico, teve grande desenvolvimento, e divulgação, com a teoria psicanalítica, que via na sua etiologia uma fixação na fase anal do desenvolvimento libidinoso; actualmente a classificação das doenças mentais com base na associação estatística, da respectiva semiologia, ainda mantém o diagnóstico, porém com o desenvolvimento e conhecimento da neuroquímica, e da neurobiologia do sistema nervoso, a tendência será para agrupar os fenómenos mentais com base na fisiopatologia e dados objectivos de medição laboratorial.  
Em termos de dinamismo psicodinâmico a dúvida, e respectiva interrogação, que surgem persistentemente na pessoa obsessiva, funcionam como um mecanismo de defensa do ego contra o delírio. As teorias do comportamento, e respectivas terapias cognitivas, ao lidar com pessoas em situação delirante tentam inocular, de modo indirecto, a dúvida e a incerteza nas respectivas crenças e convicções de modo a promover a autointerrogação, na procura de respostas alternativas, como modo de pensar capaz de diminuir a convicção delirante e favorecer um insight compreensivo da sua situação mórbida.
O pensamento e os seus mecanismos fisiológicos continuam uma incógnita mas, à luz dos conhecimentos físicos e químicos das actuais neurociências, trata-se apenas de um fenómeno electroquímico que ocorre em determinadas zonas do cérebro; na realidade a implicação dos receptores serotoninérgicos(5-HT2) e dopaminérgicos(D2) nas situações obsessivas e delirantes permitiu o desenvolvimento e utilização de novos psicofármacos como os inibidores selectivos da recaptação da serotonina e os neurolépticos atípicos com ganhos para a saúde mental.     
Os receptores de neurotransmissores, como a serotonina e dopamina, são frequentemente glicoproteinas transmembranares associadas à familia da proteina G que permite a transdução de estímulos externos em sinais intracelulares capazes de manter o funcionamento do organismo vivo. As perturbações do pensamento, entre as quais obsessões e delírios, podem agora ser explicadas à luz da fisiopatologia da inflamação (rubor, tumor, calor, dor e, mais tarde, perda de função) em conformidade com a explicação atribuída aos fenómenos da doença orgânica.
A descoberta e utilização da clorpromazina revolucionou, em pouco mais de meio século, a saúde mental com a crescente desinstitucionalização dos doentes; encarar as perturbações do pensamento como um mecanismo inflamatório permitirá o desenvolvimento de novos psicofármacos capazes de actuar exactamente na reacção química específica e responsável por essa alteração neurobioquímica.
Doutor Patrício Leite, 26 de Dezembro de 2017

Sex Symbol

A abrangência biopsicosocial da sexualidade humana transforma-a na mais fantástica maravilha do desenvolvimento evolutivo. A esfera biológica compreende o sistema e órgãos reprodutivos com a respectiva operacionalidade funcional; o plano mental envolve a identidade sexual e os modos como a pessoa lida interiormente com essa necessidade e respectivo prazer; a componente social inclui as relações e interacções que se estabelecem com o objecto de desejo sexual mas também com a sociedade em geral.

O conceito de símbolo sexual, enquanto manifestação social de sensualidade e sexualidade por uma pessoa que apela ao desejo, teve grande expansão na segunda metade do século passado e tenta explicar a procura massificada de fantasias relacionadas com sensações corporais numa sociedade do prazer.
A sexualidade é, por inerência, um território fértil de reacções e manifestações psicossomáticas mas é na individualidade mental que se encontram as mais belas explicações para o fenómeno do simbolismo sexual. Por exemplo, há pessoas que durante o seu desenvolvimento libidinoso estagnaram no conflito edipiano; algumas destas pessoas, resolvem simbolicamente, na actualidade, o seu complexo de Édipo procurando objectos de desejo sexual e sensual em figuras de autoridade inquestionável, como os médicos; outras na sua fixação identitária com o elemento frustrante desse conflito, adoptam comportamentos sádicos e desviantes de uma sexualidade saudável e reprodutiva.
O simbolismo e as fantasias sexuais, enquanto defesas do Ego, têm uma conexão intrínseca aceite pela cultura social dominante que os torna objecto de estudo psicanalítico privilegiado mas também uma diferenciação pluralista capaz de estabelecer, não um mas, vários sex symbols sociais ao serviço da emergência de um desejo libidinoso reprimido.

Doutor Patrício Leite, 22 de Dezembro de 2017

Lei da influência pessoal

Para abordar a lei da influência pessoal torna-se necessário, e útil, definir os conceitos de influência e pessoa. O conceito de influência deriva da ideia de fluido como entidade física, ou estado da matéria, cuja forma se pode alterar pela acção das forças e contingências ambientais; o conceito de pessoa resulta da ideia de uma consciência que assume uma identidade própria e se defende de todos os factores, ou forças, que possam alterar essa identidade. A consciência funciona como um processador de estímulos, ou informação, provenientes do meio interno ou externo e torna-se pessoa no momento em que assume uma identidade volitiva. A vontade é o culminar máximo de todas as forças, defensivas ou ofensivas, mentais. Considerando que, pela sua natureza, a influência é amorfa, então a influência pessoal compreende todos os modos capazes de alterar a vontade identitária de uma consciência.
Na prática pode-se sempre afirmar que se duas pessoas interagem e uma consegue alterar a vontade da outra, essa alteração derivou do exercício de influência pessoal. Estudar, e compreender, o princípio geral que governa os modos, e as forças, que permitem a uma vontade alterar outras é compreender a lei da influência pessoal.
É mais fácil influenciar outras pessoas do que resistir à influência alheia mas também é certo que, de um modo geral, todas as pessoas influentes gozam de grande prestigio pessoal e social; por outro lado, o exercício da influência é também fonte de prestígio e sucesso.
O treino em indução do transe hipnótico constitui o elemento básico de aquisição das capacidades em influência pessoal. Primeiro inicia-se com uma preparação mental que consiste em conduzir o objecto da influência a aceitar as sugestões que lhe serão dirigidas; propõe-se um estado de relaxamento corporal e mental, livre de ansiedade e de medo que proporciona aceitação incondicional. As melhores sugestões hipnóticas são emitidas com uma voz gutural profunda, lenta, monótona e imperativa; o olhar deve ser fixo com os olhos apontando para a raiz do nariz; os gestos de influência serão lentos e corridos ao longo do corpo de cima para baixo e para levantar a influência fazem-se em sentido inverso; os toques corporais serão brandos, suaves e localizados em zonas sensíveis e previamente seleccionadas. Os órgãos e sentidos que permitem a entrada das sugestões são, por ordem de importância; visão, audição, tacto, olfacto e gosto ou paladar; são pois estes que, em cada objecto de influência, devem ser estudados e trabalhados a fim de melhor concretizar o comando e controlo da mente alheia. As sugestões, além de lentas monótonas e imperativas, devem também ser repetidas; a repetição exprime melhor a crença e convicção do influenciador e quando efectuada ao longo do tempo, permite encontrar momentos de fraqueza e aceitação por parte do objecto de influência e assim entrar na sua mente.
Toda a mudança mental que um ser humano pode induzir noutro, com excepção dos métodos químicos, físicos e biológicos, é efectuada e age dentro dos limites próprios da lei da influência pessoal no entanto, ao longo da história da humanidade, foram sendo desenvolvidas técnicas e modos inovadoras de aplicação desta lei. São muitos e variados os modos como se cativa e mantém a atenção concentrada das pessoas; são também muitos os modos de conduzir as pessoas a um estado de credibilidade e aceitação do que lhes é sugerido com a respectiva mudança nas atitudes, crenças, sentimentos, comportamentos e modos de pensar mas a sugestão directa continua a ser um dos melhores instrumentos da influência pessoal. A sugestão indirecta, assim como a sugestão mediada por instrumentos, ganharam uma força extraordinária com o desenvolvimento dos meios de comunicação de massas; os programas radiofónicos gravados, assim como os audiovisuais, tornaram-se num poderoso meio de manipulação humana pela manutenção da atenção e confiança em sugestões repetitivas que conduzem e mantêm a sociedade num transe hipnótico colectivo. A sociedade actual vive completamente adormecida, todas as pessoas, e cada uma, sente e pensa sempre que é única, que tem pensamentos próprios e distintos, que tem toda a força do seu egoísmo para se defender mas, na realidade, esse pensamento e sentimento é colectivo, atravessa diametralmente todos os elementos da sociedade; o transe colectivo consiste num conjunto de ideias, sentimentos e comportamentos pré formatados, pré estabelecidos pelos donos do mundo, mas impostos a cada um como sejam propriamente seus, como sendo um produto único, uma propriedade única e individual de cada um, como se esta pessoa seja um ser humano único e individual; é o transe de fazer as pessoas acreditarem que são únicas, é o transe do actual hipnotismo de massas, é o transe do actual hipnotismo colectivo.
Doutor Patrício Leite, 9 de Dezembro de 2017

RELAÇÃO

A sobrevivência do ser humano, desde muito cedo, na evolução filogenética, tem ocorrido associada a um instinto gregário que o condiciona a viver em grupo. As relações humanas são imprescindíveis para a sobrevivência da pessoa e da espécie. Relação é o estabelecimento de, pelo menos, um laço ou ligação dinâmica entre duas, ou mais, pessoas.
São muitas as classificações das relações entre seres vivos. Em ecologia classificam-se relações de competição, parasitismo, simbiose, mutualismo, cooperação, comensalismo, predação, canibalismo, etc. estas relações podem ser adaptadas e transpostas, por analogia, para o ser humano na sua convivência intra específica.
Numa comunidade politicamente organizada pensa-se em relações de poder, estabilizadas pela ordem jurídica e presentes nas várias interacções sociais, desde as relações laborais até aos aspectos comerciais e familiares. As relações dizem-se de poder quando pelo menos um dos seus elementos sofre uma subordinação ou subordina alguém. As relações de poder são, na sua essência, relações de subordinação. Quando os políticos pedem votos, estão a propor às pessoas que se lhes subordinem; que aceitem obedecer-lhes numa ordem jurídica estabelecida e assente na subordinação das pessoas votantes aos políticos dirigentes.
A comunicação entre seres humanos permite tornar comuns aspectos da vida individual. Dos elementos da comunicação, aceita-se que a linguagem verbal é importante para a transmissão de conhecimentos, ideias, conceitos e pensamentos entre o emissor e o receptor; por outro lado a linguagem não verbal, ou corporal, é usada como método de centralização na relação entre o emissor e o receptor. Assim, a linguagem verbal centraliza-se na mensagem e a linguagem não verbal focaliza-se na relação. Na abordagem da relação, através da linguagem não verbal, o método analógico assume importância primordial. A analogia resulta de uma comparação simbólica impregnada de emoções que se associam aos objectos do comportamento; há pois, como resultado, uma continuidade da vida mental. Na realidade o ser humano, a pessoa consciente, assume a permanência da sua identidade pessoal. Durante o sono a consciência é interrompida mas, imediatamente após acordar, a pessoa retoma a sua identidade pessoal, assume a sua unidade, a unidade do sujeito. O elemento fundamental das relações intrapsíquicas que permite a unidade do sujeito, a constância da identidade unitária pessoal, é a emoção.
Sabe-se que as emoções estão bem presentes quando a pessoa está a dormir, durante o sonho; mas também as imagens e ideias simbólicas fundamentadas numa analogia de estímulos e respostas independentes da consciência, que decorrem durante o sonho, se associam com emoções constituídas em afectos que permitem a manutenção da constância mental, a manutenção da identidade pessoal, a manutenção da unidade do sujeito. Não se sabe bem como as emoções funcionam para o organismo nos períodos de sono com ausência de sonho mas acredita-se que a emoção não é interrompida pelo sono, a emoção permanece fundamentalmente numa constância que mantém a unidade do sujeito; uma constância que permite manter a unidade identitária da pessoa imediatamente após acordar, imediatamente após recuperar a consciência.
Categorizar as relações em termos de interacção com o exterior, ou com o interior, é muito importante mas a análise da relação com base na sua focalização temporal, na sua localização num determinado tempo de vida do sujeito dessa relação, também é fundamental.
As relações podem ser abordadas pela sua focalização no passado, presente ou futuro da pessoa.
Qualquer relação, entre pessoas, que aborde o passado é uma relação que convida à transferência, é uma relação que facilita a revivescência de situações de vida passada, que não ficaram bem resolvidas e por isso geram tensões e conflitos intrapsíquicos sempre prontos a tentar a sua resolução na relação presencial do presente. As relações centralizadas no passado relacionam-se com o superego, relacionam-se com a aprendizagem e internalização de normas de conduta de pendor moral; o passado de uma pessoa representa o seu superego e a presentificação desse passado é a revivescência simbólica dos conflitos ocorridos com as figuras que frustraram os seus instintos, frequentemente de carácter sexual ou libidinoso, que obrigaram os instintos a conter a sua necessidade de satisfação.
As relações pessoais centralizadas no presente são entendidas como decorrentes de uma fase exploratória, uma fase de conhecimento actual desenvolvido a partir de uma mente racional, uma mente calculista capaz de processar dados e gerar informação com um mínimo, ou nenhumas, emoções e afectos. O presente de uma pessoa representa o seu ego, representa a sua racionalidade e intelectualidade; uma relação centralizada no presente é uma relação actual de um ego que usa mecanismos defensivos, predominantemente cognitivos, para atingir objectivos previamente calculados de modo racional.
Relações pessoais centralizadas no futuro representam o id, representam a força sexual inata de uma libido capaz de gerar comportamentos tendentes à reprodução, tendentes à manutenção da espécie. As relações focalizadas no futuro são relações de acasalamento e, quando frustradas, resultam defesas do ego que se associam com mecanismos de interiorização como a identificação ou introjecção.
Na sua essência fenomenológica e por redução eidética, a trilogia dialética permite, por simbolismo analógico, estabelecer paralelismos relacionais:
 - é o caso do ego que se associa com o tempo presente, o pensamento e respectiva intelectualidade assim como todas as defesas de carácter cognitivo;
 - é o caso do superego que se associa com o tempo passado, os afectos e sentimentos assim como as defesas relacionadas com a colocação no exterior de vivências pessoais do passado tipificadas em fenómenos de projecção ou transferência, com a respectiva resistência de transferência;
 - é o caso do id que se associa com o tempo futuro, os comportamentos e acções assim como as defesas relacionadas com a colocação no interior de aspectos próprios das pessoas frustrantes, com as quais o sujeito se relaciona, resultando mecanismos defensivos tipificados na identificação e introjecção;
A análise da relação é, agora, a análise dos laços ou ligações que se estabelecem entre, pelo menos, duas partes assumidas como autónomas e independentes. Relação é um dos conceitos fundamentais para a compreensão do universo em que nos movemos; desde ciências como a física e a química até aos aspectos bio-psico-sociais e culturais, das ciências humanas, o dinamismo da relação está sempre patente. No plano da conflitualidade relacional intra e interpsíquica, geradora de sofrimento, a abordagem da relação centrada na trilogia temporal do passado, presente e futuro, conduz a uma nova psicoterapia capaz de mudar ou erradicar comportamentos patológicos e, por isso, gerar mais saúde e felicidade humana.
Doutor Patrício Leite, 20 de Novembro de 2017

VIVER PARA SEMPRE


VIVER PARA SEMPRE: Porque a complexidade da estética também transcende o homem na finitude da vida.